Desde a infância aprendemos que a convivência em sociedade tem normas e que precisamos segui-las. Em casa, com a família, e na escola, as regras existem para que a criança compreenda o que pode ou não ser feito. Algumas pessoas, porém — crianças, adolescentes e até adultos —, apresentam uma resistência persistente a regras, ordens e figuras de autoridade. Quando esse padrão é intenso, duradouro e causa prejuízos, pode se tratar do TOD – Transtorno Opositor Desafiador, também chamado de transtorno de oposição desafiante ou transtorno opositivo desafiador (às vezes abreviado como TDO).
O que é o TOD – Transtorno de Oposição Desafiante?
O TOD é uma condição em que a criança ou o adulto apresenta dificuldade importante para seguir regras e aceitar figuras de autoridade. Em geral, a família percebe esses traços de comportamento desde a infância, e o tratamento é necessário para manejar os comportamentos inadequados.
Em crianças, o TOD é caracterizado por um comportamento persistentemente negativista, hostil, desafiador, provocativo e destrutivo, fora do que se espera para a faixa etária e para o contexto sociocultural. O transtorno de conduta (TC) é considerado um agravamento do TOD, pois envolve comportamentos que violam a lei e os direitos básicos dos outros (DSM-5 e CID-10) (CHALFON & RAMOS, 2021, p. 277).
O TOD é classificado pela CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) com o código F91.3.
Como o TOD se manifesta no dia a dia
A pessoa com TOD apresenta uma dificuldade sistemática em concordar com autoridades, com o consenso do grupo e com regras sociais. É comum o comportamento de contrariar para desestabilizar o grupo e de hostilizar o outro com a intenção de irritar, indignar ou magoar. Crianças com TOD costumam se opor principalmente aos pais e professores, muitas vezes por quererem estar no mesmo lugar de poder que eles.
- Na escola: são comuns as queixas dos professores sobre oposição, desobediência às regras, brigas com colegas e, às vezes, comportamento vingativo. Com frequência, é a própria escola que encaminha os pais e a criança para um psicólogo.
- Em casa: os cuidadores tendem a se sentir frustrados e incompetentes para lidar com os comportamentos do filho, o que afeta toda a relação familiar.
- Na vida adulta: a recusa a regras pode aparecer também com supervisores de trabalho e outras figuras de autoridade.
Quais são os sintomas do TOD segundo o DSM-5?
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) descreve o TOD como um padrão de humor com predomínio de raiva e irritabilidade, comportamento questionador e desafiante ou traços vingativos. O manual elenca oito critérios, e a difusão dos sintomas em diferentes contextos é um indicador de gravidade. Por isso, é fundamental avaliar o comportamento em vários ambientes, principalmente no familiar e no escolar (AGOSTINI & SANTOS, 2018, p. 3).
Para o diagnóstico, é preciso que estejam presentes pelo menos 4 dos 8 sintomas, com duração mínima de 6 meses, manifestados na interação com pelo menos uma pessoa que não seja irmão. Os sintomas se organizam em três grupos:
Humor raivoso/irritável
- Perde a calma com frequência.
- Incomoda-se e irrita-se facilmente.
- Fica com raiva e ressentido com frequência.
Comportamento questionador/desafiador
- Questiona figuras de autoridade ou, no caso de crianças e adolescentes, os adultos.
- Recusa-se a obedecer às regras e as desafia.
- Incomoda deliberadamente outras pessoas.
- Não assume a culpa pelo próprio comportamento e atribui a responsabilidade aos outros.
Índole vingativa
- Comportamento vingativo ou malvado pelo menos duas vezes nos últimos 6 meses.
Também é importante analisar a frequência e a intensidade desses comportamentos para diferenciar o que é esperado para a idade do que está relacionado ao transtorno. Ao perceber esses sinais, é recomendado buscar a ajuda de um psicólogo para crianças ou adolescentes.
Outros comportamentos relacionados ao TOD
- Perder a calma com facilidade;
- Baixa tolerância a frustrações;
- Ser facilmente incomodado;
- Questionar figuras de autoridade;
- Recusar-se a obedecer às regras de cuidadores, professores e supervisores de trabalho;
- Culpar os outros por seus erros ou mau comportamento.
TOD e transtorno de conduta: qual a diferença?
O TOD envolve principalmente oposição, irritabilidade e desafio. Já no transtorno de conduta, considerado um agravamento do quadro, o DSM-5 descreve problemas de autocontrole das emoções, piromania (fascínio intenso por atear fogo em objetos) e violação dos direitos dos outros por meio de agressão ou destruição de propriedade e objetos pessoais.
Outros diagnósticos relacionados a essa condição são o transtorno de conduta, os transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, e o transtorno explosivo intermitente. Também é comum o TOD estar associado ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Fatores que podem contribuir para o TOD
Não existe uma causa única para o Transtorno Opositor Desafiador. De modo geral, a literatura descreve uma combinação de fatores, que precisam ser investigados caso a caso:
- Características individuais: temperamento mais reativo, dificuldade de regular emoções e baixa tolerância à frustração.
- Condições associadas: a presença de TDAH ou de outras dificuldades do desenvolvimento pode tornar o controle dos impulsos mais difícil.
- Ambiente familiar: regras inconsistentes, conflitos frequentes e ciclos de discussões entre adultos e criança podem manter ou intensificar os comportamentos de oposição.
- Contexto escolar e social: experiências repetidas de conflito, punição e rejeição tendem a reforçar o padrão desafiador.
Identificar esses fatores não significa procurar culpados. O objetivo é entender o que mantém o comportamento para planejar intervenções que façam sentido para aquela família.
O papel da escola no TOD
A escola costuma ser um dos primeiros lugares em que o padrão de oposição chama a atenção, porque ali a criança convive com regras coletivas, horários e figuras de autoridade fora da família. Professores e coordenação podem contribuir de várias formas:
- registrando situações concretas (o que aconteceu antes, durante e depois do comportamento), o que ajuda muito na avaliação;
- mantendo combinados claros e previsíveis em sala de aula;
- valorizando os momentos de cooperação, e não apenas apontando os conflitos;
- conversando com a família e, com autorização dos responsáveis, com o psicólogo ou psiquiatra que acompanha o caso.
Quando casa, escola e equipe de saúde seguem estratégias parecidas, a criança recebe mensagens mais coerentes, o que tende a favorecer a adesão ao tratamento. Esse trabalho conjunto também diminui a sensação de isolamento dos pais, que muitas vezes se sentem cobrados de todos os lados.
E na adolescência?
Na adolescência, a busca por autonomia é esperada e saudável. O sinal de alerta surge quando a oposição se torna constante, hostil e passa a trazer prejuízos importantes, como suspensões, rompimentos frequentes de vínculos ou conflitos graves em casa. Nessa fase, a psicoterapia individual ganha espaço, sempre com a família envolvida de forma combinada.
Quais os subtipos ou níveis de gravidade do TOD?
| Gravidade | Onde os sintomas aparecem |
|---|---|
| Leve | Apenas um ambiente (por exemplo, só em casa ou só na escola) |
| Moderada | Pelo menos dois ambientes |
| Grave | Três ou mais ambientes |
O TOD é exclusivo de crianças e adolescentes?
Não. Apesar de ser mais comum na infância, adultos também podem apresentar o transtorno. No entanto, ainda há poucas pesquisas científicas voltadas especificamente para adultos.
Qual é o tratamento para o Transtorno Opositor Desafiador?
O tratamento costuma envolver psicoterapia com psicólogo e, em muitos casos, acompanhamento psiquiátrico para fechamento do diagnóstico e definição de conduta medicamentosa, quando necessária. O plano é sempre individual.
Resolução Colaborativa de Problemas
Greene, Ablon e Goring (2003) descrevem um modelo de intervenção baseado na Terapia Cognitivo-Comportamental chamado Resolução Colaborativa de Problemas. Na psicoterapia, o objetivo é ajudar os adultos a compreender as interações entre adulto e criança que favorecem os comportamentos de oposição, desenvolver estratégias para lidar com a frustração, definir com clareza a vontade do adulto e lidar de forma assertiva com expectativas não atendidas. O foco é resolver as situações de discordância entre pais e filhos.
Treinamento de Manejo Parental
Outra modalidade da TCC é o Treinamento de Manejo Parental, bastante aplicado em psicoterapia. Ele busca modificar o comportamento da criança por meio de mudanças na forma como os pais lidam com ela, e mostrou-se eficaz para comportamentos opositores e desafiadores e para a melhora do clima familiar. Porém, quando há comorbidades — como o TDAH — e dependendo da idade da criança, os resultados podem ser prejudicados (SERRA-PINHEIRO, SCHMITZ, MATTOS e SOUZA, 2004). Nesses casos, geralmente se sugere um trabalho inicial com médico psiquiatra antes de iniciar a terapia da criança ou do adolescente com o psicólogo.
Psicoeducação familiar
Como a família é quem mais enfrenta os desafios do dia a dia, a psicologia contribui com a psicoeducação parental: orientação para prevenir e manejar os comportamentos e lidar com as suas consequências. A psicoeducação familiar oferece informações sobre o curso e o diagnóstico do transtorno, suas características e os métodos de tratamento, e abre espaço para discutir estratégias que os familiares podem adotar com a criança (TEIXEIRA, 2014, apud AGOSTINI & SANTOS, 2018, p. 22).
O papel da psiquiatria
Na psiquiatria, a consulta se volta para aspectos do funcionamento cerebral ligados ao controle dos impulsos, buscando melhora dos comportamentos disruptivos. Segundo Teixeira (2014), estudos indicam eficácia de alguns medicamentos na redução da impulsividade, da raiva e da agressividade. O autor alerta, porém, que eles atuam de forma paliativa, aliviando sintomas e favorecendo a melhora do comportamento e da qualidade de vida da criança, da família e das pessoas com quem ela convive (TEIXEIRA, 2014, apud AGOSTINI & SANTOS, 2018, p. 24). Qualquer medicação só pode ser indicada pelo médico após avaliação.
Por que a avaliação cuidadosa é tão importante
O manejo do comportamento e a adequação às regras sociais por meio da TCC permitem que a pessoa socialize de forma mais adequada, favorecendo seu desenvolvimento pessoal e profissional. O controle preventivo é importante para evitar a evolução do quadro, e o profissional precisa conhecer bem o funcionamento do TOD para intervir de forma adequada. Como comportamentos de oposição também fazem parte do desenvolvimento normal da criança, é necessária uma avaliação minuciosa e um diagnóstico diferencial antes de qualquer intervenção (AGOSTINI & SANTOS, 2018, p. 25). Em alguns casos, uma avaliação neuropsicológica pode complementar a investigação.
Como é a avaliação do TOD
A avaliação costuma reunir diferentes fontes de informação, porque o comportamento precisa ser observado em mais de um contexto:
- Entrevista com os pais ou responsáveis: história do desenvolvimento, quando os comportamentos começaram, frequência, intensidade e situações em que aparecem.
- Escuta da criança ou do adolescente: como ele percebe as regras, as relações e as próprias emoções.
- Informações da escola: relatos de professores e coordenação ajudam a verificar se os sintomas aparecem fora de casa.
- Diagnóstico diferencial: investigação de outras condições que podem explicar ou acompanhar o quadro, como TDAH, ansiedade, depressão ou transtorno de conduta. Quando indicado, a avaliação psiquiátrica e a neuropsicológica complementam o processo.
Dicas para pais e cuidadores no dia a dia
As orientações abaixo não substituem o acompanhamento profissional, mas costumam fazer parte da psicoeducação familiar:
- Combine poucas regras, claras e possíveis de cumprir, e mantenha-as de forma consistente entre os adultos da casa.
- Elogie e valorize os comportamentos adequados logo que acontecem, e não apenas os erros.
- Evite entrar em disputas de poder e discussões longas no momento da crise; retome a conversa quando todos estiverem mais calmos.
- Use consequências previsíveis e proporcionais, combinadas com antecedência, em vez de punições impulsivas.
- Cuide também de você: o cansaço e a frustração dos cuidadores são reais e merecem apoio.
- Mantenha diálogo com a escola para que as estratégias sejam parecidas em casa e em sala de aula.
Quando procurar ajuda
Procure um profissional quando a oposição e a irritabilidade forem frequentes, durarem meses, aparecerem em mais de um ambiente ou estiverem prejudicando a escola, a convivência familiar ou as amizades. Se houver agressões graves, risco para a criança ou para outras pessoas, procure atendimento de urgência (SAMU 192 ou pronto-socorro mais próximo).
Tratamento do TOD em Guarulhos e online
Na Aster Psicologia e Psiquiatria, psicólogos e psiquiatras tratam o Transtorno Opositivo Desafiador em Guarulhos, no Jardim Bom Clima, e também online. A abordagem é a Terapia Cognitivo-Comportamental, com participação ativa da família. Conheça também a terapia infantil e a consulta com psiquiatra.
Referências bibliográficas
- CHALFON, Mariana Simão Taliba; RAMOS, Denise Gimenez. A terapia de sandplay com crianças com sintomas de transtorno opositivo desafiador e transtorno da conduta. Bol. – Acad. Paul. Psicol., São Paulo, v. 41, n. 101, p. 276-290, dez. 2021. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415711X2021000200014&lng=pt&nrm=iso.
- AGOSTINI, Vera Lúcia Miranda Lima; SANTOS, Wenner Daniele Venâncio dos. Transtorno desafiador de oposição e suas comorbidades: um desafio da infância à adolescência. Psicologia.pt, São Paulo, 2018.
Perguntas frequentes
O que é TOD – Transtorno Opositor Desafiador?
O TOD é um padrão persistente de irritabilidade, raiva, comportamento desafiador diante de regras e autoridades e atitudes vingativas, mais comum em crianças e adolescentes. Ele vai além das birras típicas da idade, porque é frequente, intenso e causa prejuízos em casa, na escola ou no trabalho. Na CID-10, recebe o código F91.3. Somente um profissional pode fazer o diagnóstico.
Quais são os sintomas do TOD?
Os sintomas incluem perder a calma com frequência, irritar-se facilmente, sentir raiva e ressentimento, discutir com adultos e autoridades, recusar-se a seguir regras, incomodar os outros de propósito, culpar terceiros pelos próprios erros e agir de forma vingativa. O DSM-5 exige ao menos quatro desses oito sintomas por pelo menos seis meses.
Como diferenciar TOD de uma fase de birra?
A diferença está na frequência, na intensidade, na duração e nos prejuízos. Birras e contestações fazem parte do desenvolvimento, mas no TOD o padrão dura pelo menos seis meses, ultrapassa o esperado para a idade e atrapalha a vida familiar e escolar. Por isso, é necessária uma avaliação cuidadosa com diagnóstico diferencial feita por psicólogo ou psiquiatra.
Qual a diferença entre TOD e transtorno de conduta?
O transtorno de conduta é considerado um agravamento do TOD. Enquanto o TOD envolve principalmente oposição, irritabilidade e desafio, o transtorno de conduta inclui comportamentos que violam a lei e os direitos dos outros, como agressão, destruição de propriedade e fascínio por atear fogo. A avaliação profissional define qual quadro está presente e qual tratamento é indicado.
Como é o tratamento do TOD?
O tratamento combina psicoterapia baseada na Terapia Cognitivo-Comportamental, treinamento de manejo parental e psicoeducação da família. Quando há outras condições associadas, como TDAH, o psiquiatra pode participar da avaliação e indicar condutas complementares. A duração varia de caso para caso, e a participação dos pais e da escola faz diferença no processo.
Adultos podem ter TOD?
Sim, adultos também podem apresentar o Transtorno Opositor Desafiador, embora ele seja mais comum na infância e na adolescência. Ainda existem poucas pesquisas científicas voltadas especificamente a adultos. Na vida adulta, a oposição costuma aparecer em relação a supervisores, regras do trabalho e outras figuras de autoridade, e a avaliação deve ser feita por um profissional.
TOD tem relação com TDAH?
Sim, é comum que o TOD apareça associado ao TDAH. Essa combinação pode tornar o tratamento mais desafiador, e alguns estudos indicam que o treinamento parental pode ter resultados limitados nesses casos. Por isso, muitas vezes se sugere iniciar com avaliação psiquiátrica antes da psicoterapia da criança ou do adolescente.
Tem tratamento para TOD em Guarulhos e online?
Sim. A Aster Psicologia e Psiquiatria atende crianças, adolescentes, adultos e famílias presencialmente em Guarulhos, no Jardim Bom Clima, e também online. Psicologia e psiquiatria trabalham de forma integrada. O agendamento pode ser feito pelo WhatsApp (11) 98528-6840 ou pelo telefone (11) 2447-1029.



























